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Crianças nadando na piscina no Cenro Aquático LMC alfabeto em Braille

ENTREVISTA

Ser cego é apenas um detalhe

por Adriana Nogueira

Antônio Carlos Barqueiro

Aos 23 anos, vítima de retinose pigmentar, o analista de sistemas, Antônio Carlos Barqueiro perdeu a visão. Na época, estudante de Administração de Empresas, cursou três anos como vidente e terminou os estudos, cego. Hoje, Ac, como é chamado, exerce o cargo de Relações Institucionais na Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual - Laramara, em São Paulo. Seu principal objetivo é divulgar o potencial do Deficiente Visual e incluí-lo no disputado mercado de trabalho.


LMC - Qual foi o seu primeiro emprego e o começo na Laramara?
AC - Assim que perdi a visão, na minha cabeça eu não podia fazer nada, nem na área administrativa. Estava aprendendo o Braille e na primeira semana de curso eu soube de um grupo de analistas do Banco Itaú, cegos, que trabalham até hoje por lá. Esse grupo dava aula para deficientes visuais voltada para analista de sistemas, fiz o curso com eles e em pouco tempo estava empregado na Sadia. Trabalhei durante 13 anos na empresa e foi quando o Sr. Vitor (presidente da Laramara) soube que eu queria trabalhar com colocação profissional e me ofereceu um emprego. Inicialmente eu pensava que era para dar aula de Informática. Minha esposa (Rosângela Barqueiro) já trabalhava na Associação. Para mim foi uma realização. É um trabalho delicioso porque você se envolve desde o início do processo. Um jovem faz o curso de preparação para o trabalho com a auto-estima bem lá embaixo, sem vontade de fazer nada e vai adquirindo conhecimentos e cidadania e aprendendo como se colocar diante de uma entrevista de trabalho. Em pouco tempo esse jovem vai depender muito mais dele do que de mim.

LMC - Você acha que todos que fazem o curso terão condições de enfrentar o mercado de trabalho?
AC - Essa pessoa que participa do curso, às vezes, acha que não terá condições para o mercado porque tem deficiência visual, física, mora lá na zona Leste (São Paulo), é pobre e negro (exemplo). Todas as situações desfavoráveis. A gente sabe que existe esse preconceito. Um aluno conseguiu trabalhar numa escola de Línguas e hoje é arrimo de família e era sustentado por ela. Esse menino saiu daqui e transformou a vida de uma família. É muito gostoso e gratificante participar dessa transformação.

LMC - Nos últimos anos, no Estado de São Paulo, a empregabilidade para o deficiente obteve algum sucesso?
AC - A Lei que obriga as empresas a contratarem deficientes (Lei de Cotas) é de 89, mas o decreto é de 99, até 2005 foram seis anos de Lei. No início do meu trabalho procurava as empresas para contratar o deficiente, muitas diziam que não era o momento ou que ainda iam bolar um projeto de contratação, nada acontecia. Há três anos, fizemos um contato com a Delegacia Regional do Trabalho (DRT) e com o Ministério Público (MP), a coisa mudou. Eu não vou mais atrás das empresas, elas vêm aqui (Laramara). As consultorias vêm nos procurar motivadas pelas empresas que estão motivadas por uma multa da DRT. Tem que ter uma lei sim porque se não tem as empresas não se mexem. Mesmo com a Lei de Cotas ainda me pedem um deficiente modelo e com boa aparência.

LMC - A Lei colabora, mas a fiscalização existe?
AC - A DRT e o MP do Estado de São Paulo são muito atuantes. Procurem em seus estados, tem que ir atrás e procurar os seus direitos, porque é daí que um movimento surge, a partir de uma obrigação, de uma lei. Em primeiro plano a DRT orienta as empresas. Se só existe uma vaga ela tem que ser preenchida de alguma forma, tem que dar um jeito. Uma empresa que solicita um motorista (em organizações para deficientes visuais) deve ser denunciada. O melhor é sempre uma parceria com o MP e a DRT do estado. Ter um contato legal com esses órgãos facilita bastante. A DRT indica as organizações que trabalham com a deficiência desejada pela empresa e muitas têm responsabilidade social.

LMC - E a acessibilidade nas empresas contratantes, como fica?
AC - As adaptações físicas são pequenas. Acontece que na cabeça do empresário quando se fala em deficiente qual é a primeira idéia? Uma cadeira de rodas. Até o símbolo internacional que representa a deficiência é a cadeira de rodas. Então é falado para o empresário que na semana que vem ele deve contratar um deficiente. A primeira providência dele é arrebentar corredor, fazer banheiro adaptado, porque ele só pensou no deficiente físico, o cadeirante. Acontece que para contratar o deficiente visual (DV) ele não necessita dessas adaptações. O DV precisa de adaptações tipo software para o uso do computador. Quem tem baixa visão vai precisar de um ampliador de tela. Acontece que isso é cultural. Imagine-se cego, a maioria das pessoas não consegue nem sair do lugar, não sabe o que fazer. É difícil imaginar-se cego, por isso, é uma das deficiências que menos inclui por desconhecimento e por dificuldade de adaptação. Algumas pessoas acham que o software colocado no computador vai estragar o sistema da empresa ou que as senhas serão ditas pelo programa, imagina... (risos)...A senha nunca será revelada, o que é dito é "asteriscos". Por isso o empresário acha difícil a adaptação dos recursos. Tudo isso, eu vejo como um empecilho.

LMC - Mudando um pouco de assunto, de que forma você crê que os meios de comunicação podem colaborar com a inclusão social do deficiente visual?
AC - Podem ajudar e podem atrapalhar também.

LMCA novela América da Rede Globo, por exemplo?
AC - Colaborou muito com a divulgação da máquina braille, do próprio Jatobá (personagem vivido pelo ator Marcos Frota) no computador, com o cão, usando a bengala, isso ajuda, mas o que atrapalha são as "pegadinhas" de programas de televisão onde mostram o "ceguinho" pedindo uma moeda e quando a pessoa entrega, ele diz: "Só isso cara?". Esse tipo de coisa acaba com a imagem do deficiente visual (DV). Por mais que uma pessoa tenha "bom coração", vai ver aquela cena e o primeiro DV que ela encontrar na rua ela vai imaginar que ele está "passando a perna". Essas coisas atrapalham demais. Nos fizemos um apelo à Rede Globo num contato mais próximo com a equipe da novela. A Glória Perez esteve conosco na Laramara e quando veio me cumprimentar ela perguntou qual profissão o Jatobá poderia exercer na novela. Ela já tava bolando uma profissão para ele e não sabia que profissão o cego poderia realizar.

LMCLMC-Mas não ficou muito claro na novela o que o Jatobá fazia?
AC - É, ficou como Assessor de Eventos. Eu dei várias opções para a Glória (Perez), mas quem trabalhava naquela novela?...(risos)...Porque o cego tinha que estar trabalhando?... (risos).

LMCLMC-O Deficiente Visual se prepara para enfrentar o mercado de trabalho, está buscando uma profissão. O que falta pra sociedade entender e aprender a lidar com a inclusão?
AC - Outro dia eu ouvi um paralelo entre o Brasil e os Estados Unidos bem coerente. Aqui nos somos vistos de uma forma e o que é o DV nos EUA? A grande maioria veio da guerra, defendendo o país. Nos EUA tudo é para o deficiente. O povo respeita, o governo protege e as empresas contratam.

LMCLMC-O que representa o DV no Brasil?
AC - Pobreza. O deficiente físico nem tanto. Surdo, visual e mental representa o pobre, então ele é descriminado. No Nordeste (exemplo) a bengala representa um homem que pede esmola. Eu estive fazendo uma palestra por lá e saí de um hotel com a bengala na mão e as pessoas ficavam me olhando. Olham porque pensam que eu deveria estar na praça pedindo esmola, não em um hotel. A bengala representa isso no Nordeste, no Sul nem tanto, pois tem uma cultura européia, mas na grande parte do Brasil, ser deficiente significa ser pobre e o pobre é descriminado. Hoje, nem é tanto a cor da pessoa que descrimina e sim a condição da pobreza. Quando uma pessoa tem condição financeira boa deixa de ser deficiente porque tem a opção de trabalhar ou não, de viajar, passear e se divertir. A pessoa tem todos os recursos necessários, lê o que quiser, usa o computador, internet e celular. A pobreza é que é a maior deficiência.

"A questão não é a deficiência, mas sim como as pessoas lidam com isso. O cego é capaz de qualquer trabalho"

Antônio Carlos Barqueiro

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